Em jeito de homenagem: Entrevista a Regina Guimarães

24 09 2011

O núcleo de Braga da UMAR aproveita a realização do II FeministizARTE para entrevistar uma mulher incontornável na cena cultural. Tatiana Mendes esteve à conversa com ela e deixamos aqui o registo:

 

Aproveitando o II FeministizArte em curso, o núcleo de Braga da UMAR vem, por este meio, prestar homenagem a Regina Guimarães, mulher que entre ser poetisa, dramaturga, professora, letrista, activista, produtora, entre outras actividades, é actualmente consultora para a programação de cinema no Theatro Circo em Braga.

Por essa última, e em particular por ter promovido o Ciclo ‘Feminino no Singular, Feminino no Plural’ no Theatro Circo, queremos felicitá-la publicamente, uma vez que possibilitou a “expressão” do trabalho de outras mulheres, sejam elas, realizadoras, actrizes, produtoras, directoras de fotografia, engenheiras de luz ou som, argumentistas, anotadoras, cenógrafas, entre outras, ampliando os seus propósitos, nas suas palavras.

 

Regina Guimarães nasceu em 1957, no Porto, cidade onde vive e trabalha, mas quem melhor do que a própria para falar da sua pessoa, comentar o estado da(s) Arte(s) e o trabalho que desenvolve? Como tal, quisemos fazer-lhe a seguinte entrevista, via correio electrónico e à qual Regina Guimarães prontamente respondeu:

 

UMAR-Braga – Como chegou às artes?

Regina Guimarães – Mexendo as minhas perninhas. E as mãos também. Será que cheguei às artes…?

O meu pai, uma pessoa maravilhosa – e dependente porque «deficiente» como se costuma dizer –, era poeta, amante de poesia e de pintura. Tinha amigos cuja figura e obra me marcaram. Por exemplo, o Mário Cesariny ou o Manuel D’Assumpção. Isso ajudou. As artes chegaram a mim.

Ao meu pai devo a experiência radical de saber que os homens choram. Em todos os sentidos. A ele devo de perceber que todos somos assistentes e assistidos. Em todos os sentidos. A ele devo a noção de sermos humanos por excesso e por defeito. Assim viemos ao mundo. Feridos. AOS GRITOS.

 

UB – Como vê o seu percurso? Tem sido fácil ou tem sentido dificuldades?

RG – Sou uma privilegiada, obviamente. Nasci num berço de ouro e, embora tenha atravessado alguns momentos duríssimos, nada que tenha a ver com o trabalho na fábrica, ou as tarefas da mulher-a-dias… As dificuldades que sinto são fruto das minhas escolhas. Não é o caso da esmagadora maioria dos seres humanos.

 

UB – Acha que as dificuldades (se as houve) se devem ao facto de ser mulher?

RG – Por muito que as leis sejam progressistas e o discurso politicamente correcto queira tapar o sol com a peneira, as mulheres em Portugal ainda são vistas como matronas ou putas, marias ou madalenas, e por aí fora… Além disso, são vítimas de discriminações múltiplas, nomeadamente salariais. Isso desgasta… E é desolador. Faz deserto à nossa volta.

Mas é preciso acrescentar que as portuguesas, enquanto mães, esposas e educadoras, são directamente responsáveis pela perpetuação da dominação masculina. Há um certo conforto na situação de vítima e na condição de excluído…

 

UB – Como diagnostica o estado da cultura e da arte em Portugal?

RG – Cultura de estado e arte de estado parecem atraentes a uma data de gente. Porém essa mesma gente parece não reconhecer a bondade do serviço público. Então…

 

UB – Se lhe dessem a possibilidade de implementar três medidas no panorama nacional e local quais seriam?

RG – Acabar com as forças armadas e investir o dinheiro que se gasta nessa absurda instituição em desenvolver a profissão de «guardadores de paisagem».

Transformar a instituição policial e a instituição carceral em centros de estudo cujos membros, em formação permanente e exigente, deveriam assegurar o harmonioso convívio entre as populações através de formas de relação a inventar.

Envolver as escolas de todos os níveis de ensino num processo de reflexão acerca do devir dos desígnios do projecto escolar republicano, a saber: fazer desaparecer, a prazo, os estigmas da desigualdade social.

 

UB – Considera que para se ter sucesso nesta área é necessário ser-se polivalente? Ou valerá investir numa especialização?

RG – Não sei qual é a minha área: a casa? a escola? a música? o teatro? a poesia? o cinema? os trabalhos artesanais? a condição de mãe e avó e vizinha e amiga e activista e amante? Quero que se lixem as áreas! E abaixo os especialistas que, à conta da especialização, conseguem impedir que a gente discuta, com conhecimento de causa, o que se está a passar no Japão. Como se ISSO não nos dissesse respeito!!!

 

UB – Na sua opinião o acesso ou a exposição dado a homens e mulheres é igual? E como vê a sua representação nas diversas vertentes artísticas? E a forma como o público as encara?

RG – As mulheres têm alguma relutância em exporem-se ao cumprimento dos papéis que a dominação masculina inventou. Nisso têm carradas de razão. Mas perdem-na quando se armam em sonsas e se recusam a lutar contra os poderes estabelecidos.

Bem, o certo é que Portugal, com os seus brandos costumes, potencia esta local apetência para dar uma no cravo e outra na ferradura.

Mas é preciso que nos deixemos de tretas: as mudanças têm os seus custos, inclusive pessoais. E não se mudam as coisas com o apoio dos opressores, não é? Portanto…

 

UB – Na sua opinião quais são as principais razões para essa igualdade/desigualdade?

RG – O conforto de ser boneca num mundo de bonecos é um factor importante. Porque todos os bonecos são supostamente iguais mas umas são mais bem tratadas do que… estão a ver o filme???

 

UB – Quando lhe perguntam a sua profissão/actividade como gosta de se identificar?

RG – Pessoa.

 

UB – Que implicações/actividades acha que essa denominação destaca ou invizibiliza?

RG – A disponibilidade para acolher em mim todos os sonhos do mundo, como dizia a pessoa Álvaro de Campos que Pessoa fez existir.

 

UB – Quando pesquisa obras e artistas que critérios costuma ter em mente?

RG – Adequação dos projectos aos objectos. Pontos de contacto com os processos de criação que permitam o acesso do público ao privado.

 

UB – E na programação de cinema do Theatro Circo, em particular, o que costuma privilegiar?

RG – A qualidade, a variedade, por um lado. Uma sequenciação coerente, por outro.

Um cinema que não se vergue totalmente a objectivos comerciais.

Um cinema de autor – mas de todos os países, tempos e géneros, não unicamente europeu e contemporâneo.

 

UB – Qual é o publico-alvo que tem em mente quando escolhe a programação de cinema no feminino? Qual é o seu objectivo com esta proposta?

RG – Toda a gente. Todos nascemos de mulheres. Vamos escutar imagens e ver sons pensados e realizados por mulheres – é só. E é muito.

 

UB – O que lhe diz a palavra feminista? E arte e feminismos?

RG – Feminismo é – e passo a citar – aquela ideia radical de que as mulheres são gente.

Onde há luta, inconformismo e incomodidade pode haver arte. Os feminismos produziram arte. Jeanne Dielman descascando batatas em tempo real…

 

UB – Acredita que a programação que faz se cruza com os feminismos? É intencional?

RG – Cruza-se SIM. É intencional SIM. A arte é a manifestação das lutas que queremos travar. Por que luta?

Luto pela chama que nos leva a desejar intensamente a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Essa chama só a luta pode atiçá-la. Ou melhor: as lutas. Em várias frentes.

 

UB – Activismo na arte, arte e activismo… Como se conjugam estas vontades?

RG – Conjugam-se no terreno da acção. Ou seja: nesse lugar que é o fora de casa, não necessariamente a rua, mas sempre excêntrico em relação ao puramente íntimo.

 

UB – Como é trabalhar e como são os apoios para arte não mainstream?

RG – Eu trabalho sem me preocupar com a caça aos apoios. O dinheiro das subvenções não pertence obviamente ao estado que nos governa. Mas eu pretendo manter essa distância que me permite discordar do estado quando ele revela a sua faceta opressora. Assim sendo…

 

UB – Como se quebram essas fronteiras? Há espaço para produções alternativas? E em Braga? Como se ultrapassa a centralização da arte nas grandes cidades?

RG – O espaço para produções alternativas é todo ele porque, que eu saiba, ninguém é preso por se exprimir artisticamente na praça pública.

A centralização ultrapassa-se deixando de pensar nela como uma tara ou fatalidade e lutando contra as manobras dos abusadores. O país rejeitou a regionalização. Pior: nem se interessou pela questão. E ninguém parece muito interessado em inventar formas de governação mais local. Portanto, também deve haver um fenómeno de acomodação ao bem-bom da «província», não é?

 


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