Pedi um papel no restaurante onde me encontro para poder expressar por escrito aquilo que a minha voz calou…

14 01 2010

Estou distante do mundo que conheço, a trabalho, não por muito tempo, mas o suficiente para poder distanciar-me e refletir sobre as coisas que acontecem à minha volta.

Hoje um senhor por volta dos seus 80 anos falou-me sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, falou aliás muito indignado. Perguntou-me o que eu achava, eu que era uma estranha para ele…  ele não conhece as minhas lutas, aquilo que acredito, aquilo de que sou constituida, aquilo que me faz sentir que a minha existência vale a pena.

Eu que por essência desencolveria um discurso bastante complexo e emotivo para tentar abrir os olhos de alguém que toda a vida os fechou para esta realidade, limitei-me apenas a dizer: “Todos nós temos direito” e calei-me. Esta frase para mim não se limitava apenas a falar do direito ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, ela tinha um propósito  muito mais abrangente. Naquele momento percebi que a noção de direitos que tenho não alcança, efectivamente, a realidade de muitas pessoas. E, aquele homem que me pareceu “tão boa pessoa” teve um discurso homofóbico.

Já de noite e depois de terminar o meu trabalho, aqui me encontro no restaurante a escrever. Já sentada e à espera do meu pedido, entra um grupo de jovens e começam a falar do casamento homossexual. A maioria mostrou uma posição contra a lei, apenas um rapaz se mostrou sensivel à questão fulcral do direito. Senti, que conseguiria refutar todos os argumentos que apresentaram. Tantas coisas disseram que me fizeram sentir que ainda muito há para fazer neste nosso país tão pequenino, mas cheio de egoísmo social.

Esse grupo falou também contra a adopção de crianças por casais homossexuais, falaram inclusive que os filhos adoptivos desses casais poderiam ser discriminados nas escolas. E então? Também há algum tempo atrás os filhos de pais divorciados, de famílias monoparentais também eram discriminados  na escola, e mesmo assim, a sociedade não colocou barreiras para um novo começo. A sociedade aprendeu a respeitar os filhos de pais divorciados, os filhos de familias monoparentais em específico de mães solteiras… não poderá aprender também a respeitar os filhos de casais homossexuais!?

Não é uma questão de “moda”, é uma questão de direito!

Nem todos os heterossexuais se casam mesmo tendo esse direito e acredito que nem todos os homossexuais se casarão, mas aqui, com esta nova lei, os casais homossexuais poderão tal como os casais heterossexuais escolher. Assim torna-se numa questão de escolha para todos/as.

Ainda, falaram dos orfanatos. Um dos rapazes disse: “as crianças poder-se-ão sentir menos mal com os pais homossexuais” – disse-o de uma maneira tão distante que parecia que a criança se livraria de um mal maior e que poderia te a oportunidade de conseguir um mal menor. Custa-me a crer que alguém me tivesse feito sentir isso… os orfanatos não podem ser uma desculpa ou um argumento, é verdade que esse argumento em parte é válido. É diferente a dedicação para uma criança de uma familia (com as diferentes configurações de familia) do que de um orfanato. Numa familia as redes que se estabelecem tem uma base comum que é a afectividade, num orfanato as redes que se estabelecem têm como pano de fundo o trabalho (mesmo que as pessoas o executem com afecto). É fulcral perceber que existem dois polos, mas estes são unicamente os orfanatos e as famílias adoptivas, sendo estas ultimas monoparentais, de casais heterossexuais, de casais homossexuais, etc.

Sei que a aprovação da nova lei foi também uma questão política, um jogo político, mas desta vez esse jogo político foi ao encontro da verdadeira cidadania.

Hoje percebi mais uma vez que a discriminação não está relacionada unicamente com a idade, nem com etnias, está implicitamente ou explicitamente ligada à indiferença para o que é diferente do nosso referencial.

Eu não quero tornar-me indiferente… nem ao que é diferente, nem ao que é igual a mim. Todos nós somos diferentes e iguais dependendo do que consideramos referencial. Lutar contra qualquer tipo de discriminação não é uma luta apenas de uns/umas, deverá ser uma luta de todos/as. A causa não é só de uns, é de todos/as.

Eu sou homem, branco, heterossexual e rico por isso as causas do feminismo, do racismo, da homofobia e do classismo, não são minhas.

Mas a minha mãe não teve as mesmas oportunidades de estudar que o meu pai porque é mulher, a minha irmã casou com um negro e tive uma sobrinha negra, o meu melhor amigo disse-me que era gay e apaixonei-me por uma rapariga de familia pobre.

 E agora as causas são minhas ou são dos outros?

Liliana Rodrigues


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2 responses

28 02 2010
Bruno Vilela

Muito bom post.
Não só gostei da analise social e cultural como gostei do ponto de vista humana de melhorar a própria postura, afim de conseguir ir mais longe, alcançar mais pessoas e tornar a mensagem mais forte e vivida.

22 05 2010
Jorge Gato

Muito bom Liliana. O problema é transmitir o que nos parece óbvio a cabeças cheias de preconceito. A mim, o que me impressiona particularmemente é este tipo de discurso em jovens. Mais do que irritado fico com pena… Mas talvez seja com estes que vale a pena argumentar mais… Afinal, que culpa têm eles de nunca terem tido, por exemplo, uma educação sexual ou mesmo para a diversidade, em condições?
Jorge Gato

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