Nem tudo o que parece, é!

1 05 2009

artwork_images_191_305914_cindy-shermanEntre avanços e retrocessos, a mulher deixou o lar, delegou em outrem (parte) da educação dos/as filhos/as, começou a obter o seu próprio salário. O cenário parece, de facto, auspicioso: a mulher sai de casa, liberta-se do cordão de dependência (e subordinação!) do marido, tende a constituir-se como um membro da sociedade auto-suficiente.

Contudo, o panorama não é tão agradável como se pensa. Não obstante a crescente feminização do mercado de trabalho, este continuar a exibir uma estrutura patriarcal que marginaliza as mulheres, ainda encaradas como excepções num universo, “por natureza”, dos homens!

Para comprovar as minhas asserções, atentemos nos traços mais proeminentes da realidade laboral portuguesa:

– A participação das mulheres no mercado de trabalho é incontestável. Todavia, não nos deixemos seduzir por meros valores, pois apenas nos induzem em erro. Não podemos olvidar a maior vulnerabilidade feminina no que concerne ao desemprego. Com efeito, a taxa de desemprego da mulher é muito mais insinuante do que a do homem. No quarto trimestre de 2008 (INE, Estatísticas do Emprego), a taxa de desemprego nos homens foi de 6,8% enquanto a das mulheres ascendeu aos 8,9%.

– A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho contribui para a sua emancipação. Porém, a máxima “salário igual para trabalho de valor equivalente” é assaz adulterada. Em média, os salários das mulheres são nitidamente inferiores aos dos homens, mesmo nos níveis de qualificação mais elevados.

– Qualquer situação desviante da norma é punida (hipocritamente): veja-se o caso da gravidez, por exemplo. Quantas mulheres ainda são demitidas pelo facto de terem engravidado? Não raras são as entrevistas de emprego que levantam a questão: quando pretende ter filhos? Mais. Quantas mulheres protelam a maternidade em virtude de os desejos da entidade patronal?!

– As mulheres estão em maioria nas universidades – é um facto inegável. Contudo: detêm elas o mesmo estatuto que os homens? Não! Há, por um lado, uma concentração feminina num conjunto restrito de actividades profissionais, a saber, serviços pessoais e domésticos, saúde e acção social e educação – segregação horizontal. Por outro, a nível da verticalidade do mercado de trabalho, verifica-se uma maior prevalência das mulheres nos níveis inferiores da hierarquia profissional, ou seja, à medida que aumentam os níveis de qualificação, a concentração feminina diminui – segregação vertical.

– A violência laboral transfigurada no assédio moral e sexual torna-se cada vez mais evidente e nefasta para as relações entre os indivíduos. O assédio moral corresponde a tentativas de descredibilizar, escarnecer, menosprezar manifestadas por um indivíduo em relação a um que lhe é hierarquicamente inferior. Esta forma de violência é, frequentemente, exercida sobre mulheres que retomam as suas funções laborais após um interregno para usufruir da licença de maternidade. O assédio sexual consiste, por seu turno, num comportamento de cariz sexual indesejado por quem é objecto da mesma. Traduz-se em suborno sexual (a vítima é aliciada com oportunidades de formação profissional, promoções, aumento de salário se aceder aos “pedidos” que lhe são colocados); comentários inoportunos, agressões físicas, posturas sexuais. De notar que, uma vez que as mulheres estão escassamente representadas nas posições de chefia, as vítimas de assédio sexual são maioritariamente do sexo feminino.

“Nem tudo o que parece, é”. A menção desta expressão não poderia ser mais oportuna.
O facto de as mulheres participarem no mercado de trabalho não significa que detenham o mesmo estatuto e oportunidades que os homens. Pelo contrário, parece que deixaram a subserviência doméstica para serem marginalizadas no emprego!

A igualdade, essa, ainda está longe de ser uma realidade.

 

P’lo Núcleo de Braga da UMAR
Anabela Santos

Imagem: Cindy Sherman


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