O reino de sonho de um fadista demagogo

4 04 2009

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Quem já viu alguns dos filmes de David Lynch, ou leu um livro de Kafka entende o que é percepcionar uma narrativa desconecta, frenética e acelerada onde a realidade é apenas o fundo de uma ficção assustadoramente verdadeira – talvez náusea seja a melhor maneira de descrever o que sentimos, e no entanto tudo aquilo é saborosamente irreal. Foi desta mesma impressão que fruímos, quando na última quarta-feira (1 de Abril), assistimos ao colóquio realizado na Universidade do Minho, subordinado ao tema Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo.

Pela voz de um partidário do não, Eng. Nuno da Câmara Pereira, escutámos uma amálgama de ideias desconectas: como naqueles sonhos em que temos a percepção de estar a dormir, mas não conseguimos despertar, e tudo se torna demasiado real!

 A argumentação do Eng. Câmara Pereira partia do seguinte pressuposto: tudo aquilo que poderá, de alguma forma, colocar em causa a masculinidade e a patriarcalidade da sociedade, representando uma ofensa aos valores tradicionais e conservadores, destruirá a família e consequentemente a sociedade, levando à ruptura e ao caos da humanidade. Este tipo de discurso não é uma novidade: se pegarmos no manifesto da Família natural, redigido por Allan C. Carlson & Paul T. Mero, encontramos lá esta mesma ideia: “ (…) uma terrível nuvem de ideologias que tinham um alvo em comum: a família natural. Esses sistemas de ideias incluíam o socialismo, o feminismo, o comunismo, o hedonismo sexual, o nacionalismo racial e o liberalismo secular”. Não será necessário reproduzirmos a totalidade do discurso para percebermos como se fazem ligações descabidas entre algumas ideias – por exemplo, o Eng. Câmara Pereira associa a homossexualidade a pedofilia, afirma que o feminismo visa “seduzir e viciar a mulher”, etc..

Toda esta narrativa foi facilmente desconstruída por quem defendia o sim, por um motivo simples: nenhum dos argumentos utilizados por este(s) indivíduo(s), por muito esforçados que sejam, defendem o ideal de “família natural”, apenas representam um ataque a uma realidade que estes não consideram, ou que repudiam porque entra em confronto com os seus ideais. No caso particular do feminismo, que os discursos mais conservadores fazem sempre questão de atacar, como se representasse uma ameaça para a ordem social e humana, levantam-se algumas questões: será que as mulheres por conhecerem os seus direitos são piores mães? Uma mulher, só porque é inferiorizada e escravizada à imagem de dona de casa, tem mais significado social, a não ser o de martir? Desde que as mulheres votam, têm profissão ou liberdade de opção o mundo tornou-se pior?

Nuna sociedade que luta pela abertura e reconhecimento da diferença pela igualdade (distante da discriminação da diferença), encontramos ainda tipos de discurso negativos associado à imagem da mulher que, para além de serem marcadamente discriminatórios, entram em contradição com algumas premissas dos Direitos Humanos:  Artigo 2º Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,  religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição; ou mesmo com alguns artigos da Constituição da República Portuguesa : Artigo 2.º A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa. Artigo 13.º 2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

A miscigenação de ideias levada a cabo pelo discurso patriarcal coloca em causa a sua veracidade: utilizando ideias científicas fora do contexto, ou colocando a luta de alguns movimentos sociais ou ideológicos longe do seu verdadeiro objectivo, acabam por (auto)desacreditar-se. Mas este é talvez o único caminho que encontram para defender a sua bandeira: o regresso à tradicionalidade, às sociedades patriarcais assentes nos pilares da masculinidade onde a mulher é colocada em segundo plano.

Em suma, são estes argumentos que colocam em cheque a humanidade e, se me permitem, tudo isto contribui para questionar o ideal de família, de homem e mulher, de sociedade e de humanidade. A defesa de uma moral vã e antiquada, que se propaga por uma narrativa falsificada (e falsificadora) da sociedade, deve ser classificada como uma destruição dos valores das democracias modernas.

P’lo Núcleo de Braga da UMAR
Nicolau Roque


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