Comunidade de Leitura Dramática associa-se ao II FeministizARTE

24 09 2011
“Casa de Bonecas”, de Henrik Ibsen, é a obra em destaque na próxima sessão da Comunidade de Leitura Dramática do projecto BragaCult, evento que integra a programação do “FeministizARTE”, festival organizado pelo Núcleo de Braga da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR).
A leitura, de entrada livre, terá lugar no Salão Nobre do Theatro Circo, na próxima quarta-feira (28), pelas 21h30, sob orientação de Rui Madeira.
Proposta por Regina Guimarães – poeta, cineasta, dramaturga e letrista -, a obra, umas das peças modernas mais conhecida e encenada, questiona as convenções sociais do casamento e retrata a hipocrisia e os convencionalismos da sociedade do final do século XIX.
Henrik Johan Ibsen (Skien, 20 de Março de 1828 — Kristiania, 23 de Maio de 1906) foi um famoso dramaturgo norueguês, considerado um dos precursores do teatro realista moderno. As tomadas de posição críticas e polémicas fizeram dele uma personagem incómoda em certos meios. O autor valorizava a manifestação da vontade e da personalidade humana, atacando a cobardia e o espírito conformista. As suas peças causaram escândalo na sociedade da época, quando os valores morais vitorianos da família e da propriedade eram ainda largamente predominantes e qualquer contestação desses valores era imoral e ofensiva.




Em jeito de homenagem: Entrevista a Regina Guimarães

24 09 2011

O núcleo de Braga da UMAR aproveita a realização do II FeministizARTE para entrevistar uma mulher incontornável na cena cultural. Tatiana Mendes esteve à conversa com ela e deixamos aqui o registo:

 

Aproveitando o II FeministizArte em curso, o núcleo de Braga da UMAR vem, por este meio, prestar homenagem a Regina Guimarães, mulher que entre ser poetisa, dramaturga, professora, letrista, activista, produtora, entre outras actividades, é actualmente consultora para a programação de cinema no Theatro Circo em Braga.

Por essa última, e em particular por ter promovido o Ciclo ‘Feminino no Singular, Feminino no Plural’ no Theatro Circo, queremos felicitá-la publicamente, uma vez que possibilitou a “expressão” do trabalho de outras mulheres, sejam elas, realizadoras, actrizes, produtoras, directoras de fotografia, engenheiras de luz ou som, argumentistas, anotadoras, cenógrafas, entre outras, ampliando os seus propósitos, nas suas palavras.

 

Regina Guimarães nasceu em 1957, no Porto, cidade onde vive e trabalha, mas quem melhor do que a própria para falar da sua pessoa, comentar o estado da(s) Arte(s) e o trabalho que desenvolve? Como tal, quisemos fazer-lhe a seguinte entrevista, via correio electrónico e à qual Regina Guimarães prontamente respondeu:

 

UMAR-Braga – Como chegou às artes?

Regina Guimarães – Mexendo as minhas perninhas. E as mãos também. Será que cheguei às artes…?

O meu pai, uma pessoa maravilhosa – e dependente porque «deficiente» como se costuma dizer –, era poeta, amante de poesia e de pintura. Tinha amigos cuja figura e obra me marcaram. Por exemplo, o Mário Cesariny ou o Manuel D’Assumpção. Isso ajudou. As artes chegaram a mim.

Ao meu pai devo a experiência radical de saber que os homens choram. Em todos os sentidos. A ele devo de perceber que todos somos assistentes e assistidos. Em todos os sentidos. A ele devo a noção de sermos humanos por excesso e por defeito. Assim viemos ao mundo. Feridos. AOS GRITOS.

 

UB – Como vê o seu percurso? Tem sido fácil ou tem sentido dificuldades?

RG – Sou uma privilegiada, obviamente. Nasci num berço de ouro e, embora tenha atravessado alguns momentos duríssimos, nada que tenha a ver com o trabalho na fábrica, ou as tarefas da mulher-a-dias… As dificuldades que sinto são fruto das minhas escolhas. Não é o caso da esmagadora maioria dos seres humanos.

 

UB – Acha que as dificuldades (se as houve) se devem ao facto de ser mulher?

RG – Por muito que as leis sejam progressistas e o discurso politicamente correcto queira tapar o sol com a peneira, as mulheres em Portugal ainda são vistas como matronas ou putas, marias ou madalenas, e por aí fora… Além disso, são vítimas de discriminações múltiplas, nomeadamente salariais. Isso desgasta… E é desolador. Faz deserto à nossa volta.

Mas é preciso acrescentar que as portuguesas, enquanto mães, esposas e educadoras, são directamente responsáveis pela perpetuação da dominação masculina. Há um certo conforto na situação de vítima e na condição de excluído…

 

UB – Como diagnostica o estado da cultura e da arte em Portugal?

RG – Cultura de estado e arte de estado parecem atraentes a uma data de gente. Porém essa mesma gente parece não reconhecer a bondade do serviço público. Então…

 

UB – Se lhe dessem a possibilidade de implementar três medidas no panorama nacional e local quais seriam?

RG – Acabar com as forças armadas e investir o dinheiro que se gasta nessa absurda instituição em desenvolver a profissão de «guardadores de paisagem».

Transformar a instituição policial e a instituição carceral em centros de estudo cujos membros, em formação permanente e exigente, deveriam assegurar o harmonioso convívio entre as populações através de formas de relação a inventar.

Envolver as escolas de todos os níveis de ensino num processo de reflexão acerca do devir dos desígnios do projecto escolar republicano, a saber: fazer desaparecer, a prazo, os estigmas da desigualdade social.

 

UB – Considera que para se ter sucesso nesta área é necessário ser-se polivalente? Ou valerá investir numa especialização?

RG – Não sei qual é a minha área: a casa? a escola? a música? o teatro? a poesia? o cinema? os trabalhos artesanais? a condição de mãe e avó e vizinha e amiga e activista e amante? Quero que se lixem as áreas! E abaixo os especialistas que, à conta da especialização, conseguem impedir que a gente discuta, com conhecimento de causa, o que se está a passar no Japão. Como se ISSO não nos dissesse respeito!!!

 

UB – Na sua opinião o acesso ou a exposição dado a homens e mulheres é igual? E como vê a sua representação nas diversas vertentes artísticas? E a forma como o público as encara?

RG – As mulheres têm alguma relutância em exporem-se ao cumprimento dos papéis que a dominação masculina inventou. Nisso têm carradas de razão. Mas perdem-na quando se armam em sonsas e se recusam a lutar contra os poderes estabelecidos.

Bem, o certo é que Portugal, com os seus brandos costumes, potencia esta local apetência para dar uma no cravo e outra na ferradura.

Mas é preciso que nos deixemos de tretas: as mudanças têm os seus custos, inclusive pessoais. E não se mudam as coisas com o apoio dos opressores, não é? Portanto…

 

UB – Na sua opinião quais são as principais razões para essa igualdade/desigualdade?

RG – O conforto de ser boneca num mundo de bonecos é um factor importante. Porque todos os bonecos são supostamente iguais mas umas são mais bem tratadas do que… estão a ver o filme???

 

UB – Quando lhe perguntam a sua profissão/actividade como gosta de se identificar?

RG – Pessoa.

 

UB – Que implicações/actividades acha que essa denominação destaca ou invizibiliza?

RG – A disponibilidade para acolher em mim todos os sonhos do mundo, como dizia a pessoa Álvaro de Campos que Pessoa fez existir.

 

UB – Quando pesquisa obras e artistas que critérios costuma ter em mente?

RG – Adequação dos projectos aos objectos. Pontos de contacto com os processos de criação que permitam o acesso do público ao privado.

 

UB – E na programação de cinema do Theatro Circo, em particular, o que costuma privilegiar?

RG – A qualidade, a variedade, por um lado. Uma sequenciação coerente, por outro.

Um cinema que não se vergue totalmente a objectivos comerciais.

Um cinema de autor – mas de todos os países, tempos e géneros, não unicamente europeu e contemporâneo.

 

UB – Qual é o publico-alvo que tem em mente quando escolhe a programação de cinema no feminino? Qual é o seu objectivo com esta proposta?

RG – Toda a gente. Todos nascemos de mulheres. Vamos escutar imagens e ver sons pensados e realizados por mulheres – é só. E é muito.

 

UB – O que lhe diz a palavra feminista? E arte e feminismos?

RG – Feminismo é – e passo a citar – aquela ideia radical de que as mulheres são gente.

Onde há luta, inconformismo e incomodidade pode haver arte. Os feminismos produziram arte. Jeanne Dielman descascando batatas em tempo real…

 

UB – Acredita que a programação que faz se cruza com os feminismos? É intencional?

RG – Cruza-se SIM. É intencional SIM. A arte é a manifestação das lutas que queremos travar. Por que luta?

Luto pela chama que nos leva a desejar intensamente a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Essa chama só a luta pode atiçá-la. Ou melhor: as lutas. Em várias frentes.

 

UB – Activismo na arte, arte e activismo… Como se conjugam estas vontades?

RG – Conjugam-se no terreno da acção. Ou seja: nesse lugar que é o fora de casa, não necessariamente a rua, mas sempre excêntrico em relação ao puramente íntimo.

 

UB – Como é trabalhar e como são os apoios para arte não mainstream?

RG – Eu trabalho sem me preocupar com a caça aos apoios. O dinheiro das subvenções não pertence obviamente ao estado que nos governa. Mas eu pretendo manter essa distância que me permite discordar do estado quando ele revela a sua faceta opressora. Assim sendo…

 

UB – Como se quebram essas fronteiras? Há espaço para produções alternativas? E em Braga? Como se ultrapassa a centralização da arte nas grandes cidades?

RG – O espaço para produções alternativas é todo ele porque, que eu saiba, ninguém é preso por se exprimir artisticamente na praça pública.

A centralização ultrapassa-se deixando de pensar nela como uma tara ou fatalidade e lutando contra as manobras dos abusadores. O país rejeitou a regionalização. Pior: nem se interessou pela questão. E ninguém parece muito interessado em inventar formas de governação mais local. Portanto, também deve haver um fenómeno de acomodação ao bem-bom da «província», não é?

 





Umar Braga participa na conferência “Diferentes Géneros Iguais Oportunidades”

24 09 2011

Uma iniciativa da BragaHabit E.M. que decorreu no dia 22 de Setembro no auditório do Parque de Exposições de Braga e que contou com a presença de Tatiana Mendes com uma intervenção sobre “O Assédio Sexual no Espaço Público, na Rua e no Trabalho” e de Carla Cerqueira sobre as representações de género nos media.





Manifesto contra o preconceito às Brasileiras

24 09 2011
Manifesto em repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal
Vimos por meio deste, manifestar nosso repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal e exigir que providências sejam tomadas por parte das autoridades competentes.
Concretamente, apontamos a comunicação social portuguesa e a forma como, insistentemente, tem construído e reproduzido o estigma de hiper sexualidade das mulheres brasileiras. Este estigma é uma violência simbólica e transforma-se em violência física, psicológica, moral e sexual. Diversos trabalhos de investigação, bem como o trabalho de diversas organizações da sociedade civil, têm demonstrado como as mulheres brasileiras são constantemente vítimas de diversos tipos de violência em Portugal.
O estigma da hiper sexualidade remonta aos imaginários coloniais que construíam as mulheres das colônias como objetos sexuais, escravas sexuais, e marcadas por uma sexualidade exótica e bizarra. Cita-se, por exemplo, a triste experiência da sul-africana Saartjie Baartman, exposta na Europa, no século XIX, como símbolo de uma sexualidade anormal. Em Portugal, esses imaginários coloniais, infelizmente, ainda são reproduzidos pela comunicação social.
Teríamos muitos exemplos a citar, mas focaremos no mais recente, o qual motivou um grupo de em torno de 140 mulheres e homens, de diferentes nacionalidades, a mobilizarem-se, a partir das redes sociais, para escrever este manifesto e conseguir apoio de diferentes organizações da sociedade civil. Trata-se da personagem “Gina”, do Programa de Animação “Café Central” da RTP (Rádio Televisão Portuguesa). A personagem é a única mulher do programa, a qual, devido ao forte sotaque brasileiro, quer representar a mulher brasileira imigrante em Portugal. A personagem é retratada como prostituta e maníaca sexual, alvo dos personagens masculinos do programa. Trata-se de um desrespeito às mulheres brasileiras, que pode ser considerado racismo, pois inferioriza, essencializa e estigmatiza essas mulheres por supostas características fenotípicas, comportamentais e culturais comuns. Trata-se de um desrespeito a todas as mulheres, pois ironiza/escarnece sua sexualidade, sua possibilidade de exercer uma sexualidade livre, o que pode ser considerado machismo e sexismo. Trata-se, ainda, de um desrespeito às profissionais do sexo, pois ironiza o seu trabalho, transformando-o em símbolo de deboche/piada/anedota, sendo que não é um trabalho criminalizado em Portugal, portanto, é um direito exercê-lo livre de estigmas. No anexo 1 desta carta estão: o vídeo de um dos episódios (na versão on-line), e a transcrição de um dos episódios, bem como, a imagem dos personagens (na versão impressa). Destacamos que o fato é agravado por se tratar de uma emissora pública, a qual em hipótese alguma deveria difundir valores que ferem o direito das mulheres e da dignidade humana.
Exigimos, das autoridades competentes, que se faça cumprir a “CEDAW – Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres”, da qual tanto Portugal, como o Brasil, são signatários. Destacamos, também, o “Memorando de Entendimento entre Brasil e Portugal para a Promoção da Igualdade de Gênero”, no qual consta que estes países estão “Resolvidos a conjugar esforços para avançar na implementação das medidas necessárias para a eliminação da discriminação contra a mulher em ambos os países”.

 

Coordenação do Manifesto. http://manifestomulheresbrasileiras.blogspot.com/





II FeministizARTE – Festival de Arte Feminista

1 09 2011

Na sua segunda edição, o FeministizARTE – Festival de Arte Feminista pretende despertar, pela arte e pelo belo, a consciência feminista dos Bracarenses. O Núcleo de Braga da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) tem assim orgulho de convidar toda a comunidade a desfrutar de espaços da nossa cidade ao mesmo tempo que contacta com a criatividade de artistas amplamente reconhecidos.

Neste sentido, apresentaremos no Estaleiro Cultural Velha-a-Branca as exposições permanentes de Mariana Bacelar, Mariana Selva, Ana Pereira e Natacha Pereira. NaLivraria Centésima Página estarão as obras da artista Olga Barbosa. Estaremos ainda no espaço Quatorze com os trabalhos de Helena Elias.

Para além das exposições permanentes, terão ainda lugar ao longo do mês de Setembro performances do GATA (Grupo Activismo e Transformação pela Arte), Vânia Silva, Ana Baptista e Maíra Ribeiro, Flávio Rodrigues e Tin.Bra. Teremos ainda espaço para a apresentação de livros das académicas Ana Gabriela Macedo e Manuela Tavares bem como para uma mesa redonda que procurará desmistificar a identificação da arte feminista com a arte no feminino, que conta com a presença deMárcia OliveiraMaria Luísa Coelho Marta Bernardes.

Paralelamente, e através de parcerias, ocorrerá um encontro dedicado à autora Clarice Lispector na Livraria Centésima Página e a leitura de uma peça organizada pela Comunidade de Leitura Dramática do BragaCult.

O festival arrancará oficialmente no dia 3 de Setembro e decorrerá ao longo de todo o mês. Para uma visita comentada junte-se a nós para o Roteiro pelas obras com o comentário de Ana Gabriela Macedo. Todas as entradas são gratuitas.

Consulte todo o programa  ou acompanhe-nos pelo facebook.

 

Venha desfrutar connosco!

Saudações Feministas

Núcleo de Braga da UMAR





CARTA ABERTA A MANUEL ANTÓNIO PINA

30 06 2011

Lemos a sua crónica sobre o assédio sexual. Pensámos, de imediato, que o desconhecimento e a desinformação terão sido o motor do respectivo conteúdo.

Vimos, ao abrigo do direito de resposta da Lei da Imprensa (artº 24º da Lei 2/1999, de 3 de Janeiro, com as alterações da Lei nº 18/2003, de 11 de Junho), apresentar alguns esclarecimentos para o público em geral.

Estamos certas que, no dia seguinte à sua publicação, o autor terá sido informado por algum/a jurista que o assédio sexual NÃO está criminalizado em Portugal. O facto é que, tendo o Código de Trabalho, no seu artigo 29º, a figura do Assédio Sexual, ela não tem correspondência no Código Penal.

Uma vítima de assédio, em sua defesa, só pode utilizar alguns dos muitos comportamentos que constituem o padrão do assédio sexual, a saber, o artº 143º e seguintes relativos às ofensas à integridade física, simples ou agravada; o artº 163º relativo à coacção sexual, que pressupõe “constranger outra pessoa a sofrer ou a praticar, consigo ou com outrem, acto sexual de relevo”, e que está próximo do 164º que diz respeito à violação; e o artº 170º sobre o exibicionismo.

Mesmo no contexto do trabalho, o que está previsto é o processo disciplinar por parte da entidade patronal contra o agressor. Nem é tida em conta a necessidade de ressarcimento da vítima. Quando muito, esta pode apresentar queixa-crime à luz dos artigos citados, apenas sobre alguns comportamentos separadamente, dado que o assédio sexual como crime não está previsto.

 Decerto que também lhe disseram que não se pode confundir assédio com sedução consentida, nem piropo com elogio. Não deixa de ser surpreendente o modo como, frequentemente, a resposta a quem procura combater o assédio sexual, nos diferentes contextos em que este existe nas nossas sociedades, passa pela redução deste ‘ao piropo e ao assobio’ e pela comovente defesa dos comportamentos de homens a presentearem mulheres com piropos e elogios, ainda que quase sempre estes sejam degradantes e obscenos (seria curioso perceber se os mesmos sairiam em defesa de homens a dirigirem a outros homens, no mesmo espaço público, os mesmos elogios e carícias).

Se a gravidade destas formas de assédio não deve ser diminuída é ainda preciso perceber que o assédio sexual se caracteriza muitas vezes por padrões de comportamento e não apenas por comportamentos isolados: comportamentos diversos de coacção, controle e humilhação sobre outra pessoa em situação de desvantagem e/ou subordinação (e.g. chantagem, chamadas telefónicas, perseguição na rua, envio de cartas e/ou correio electrónico, envio de prendas não solicitadas, ameaças à pessoa ou a familiares e amigos, danificar a propriedade, insultos, apresentar denúncia à polícia sem fundamento, etc.), englobando não apenas comportamentos de perseguição mas também palavras ou acções de carácter sexual, não pretendido pela pessoa a quem se destina, sendo por esta vivido como ofensivo e/ou ameaçador.

 O assédio, exactamente porque não se trata de um comportamento isolado mas de um conjunto de comportamentos abusivos, traz danos à saúde física e psicológica das vítimas, pelo medo, pelo estado de alerta permanente e pelos constrangimentos que coloca aos seus quotidianos. Inúmeros estudos têm demonstrado a existência destes danos quer para a saúde física quer para a saúde mental que podem ser consequência da experiência de assédio sexual. Por exemplo, o estudo recente levado a cabo por Sharyn Ann Lenhart (Professora Associada de Psiquiatria na Escola Médica da Universidade de Massachusetts) reportou danos diversos que incluem (entre outros) náuseas, dores perturbação do sono, tiques, espasmos musculares, aumento de problemas respiratórios e infecções do trato urinário, recorrências de doenças crónicas, úlceras, tristeza persistente e/ou crises de choro persistente, diminuição da auto-estima, ansiedade, medo de perda de controle, medos obsessivos, insegurança e autoconfiança diminuída, diminuição da concentração sentimentos de humilhação, de impotência e alienação.

 Tais consequências são aumentadas pela vulnerabilidade e isolamento a que são votadas estas mulheres e para as quais contribui a desvalorização social (e legal) do fenómeno e a forma como o julgamento social (de homens e mulheres) parece mobilizar-se facilmente para culpabilizar as vítimas ou atacar quem as defendem mas muito dificilmente para condenar os comportamentos e as práticas dos assediadores ou para reconhecer a existência e a gravidade do assédio.

Esta cultura de redução do assédio sexual ao piropo e ao assobio dificulta ainda o recurso das vítimas aos parcos instrumentos legais ao seu dispor. Como na legislação penal apenas está em causa o “acto sexual de relevo”, muitos/as magistrados/as podem desvalorizar a gravidade destes danos causados às vítimas, como aconteceu no acórdão citado por si (o celebre acórdão da “coutada do macho latino”, ou no acórdão da Relação do Porto de 13 Abril deste ano, que absolveu o psiquiatra que violou uma mulher grávida no fim do tempo, ambos acessíveis à consulta on-line. A propósito deste último, pode ainda ler-se o artigo da Prof.ª Teresa Beleza (consultável em www.fd.unl.pt/anexos/4199.pdf).

 Devido à ausência de uma verdadeira protecção legal para as vítimas e da desinformação em geral, a UMAR tem vindo a desenvolver o Projecto da Rota dos Feminismos Contra o Assédio Sexual e, neste âmbito, vamos realizar uma tertúlia subordinada ao tema “Terá o Direito Resposta para o Assédio Sexual?”, com Clara Sottomayor (investigadora e docente na Universidade Católica e membro da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas — APMJ), Joana Azevedo da Costa (advogada e membro da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas — APMJ) e Maria José Magalhães (investigadora e docente e da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e Presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta — UMAR), no Clube Literário do Porto, dia 30 de Junho, Quinta-feira, pelas 21h 30, para a qual convidamos Manuel António Pina.

Em tudo aquilo que a UMAR se envolve, fá-lo de uma forma séria, determinada e fundamentada. Cremos que este devia ser o exemplo a seguir por muitos fazedores da opinião pública (opinion makers).

 

Maria José Magalhães,

 Presidente da UMAR





UM SÉCULO PARA QUE UMA MULHER CHEGASSE A PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

30 06 2011

Comunicado da UMAR

A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta congratula-se com a eleição da jurista Assunção Esteves para Presidente da Assembleia da República.

Este acontecimento tem um particular significado político e histórico, não só porque se trata da segunda figura do Estado, como também pelo facto de Assunção Esteves ter sido eleita, no ano do centenário do voto pioneiro de Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal e na Europa, com excepção dos países nórdicos.

 Assunção Esteves representa, assim, a longa caminhada das mulheres para a Igualdade, que tem sido feita de avanços e recuos. De destacar, no seu discurso desta tarde, na Assembleia da República, ter partilhado e dedicado a alegria que estava a sentir às outras mulheres, “às políticas e às mulheres anónimas e oprimidas”. Foram decerto estes valores e o seu pensamento livre, que a colocaram do lado das mulheres que lutaram pelo direito de interromper uma gravidez não desejada

E este é um facto que, como associação de mulheres feministas, não podemos esquecer!

Saudamos, pois, este seu pensamento livre, num momento crucial para o país, onde as mulheres vão ser as principais atingidas com as medidas de austeridade que vão ser impostas.

Saudamos Assunção Esteves, mulher inteligente e determinada, como segunda figura de Estado.

Saudamos a primeira Presidenta da Assembleia da República, convictas de que, com este cargo, vai contribuir para uma nova política e para uma democracia mais inclusiva.

 

Lisboa, 21 de Junho de 2011